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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Novela: Lia, a caolha que enxergava tudo – A jornalista

1ª fase.

Feia e rejeitada desde menina, Lilibethe era inteligente e burra ao mesmo tempo.
Na escola, amava Ted e Janaia, que não a amavam de jeito nenhum.
Era no interior.
Cidade Pequena.
Praça, cachoeira e masturbação na mata.
Eram meninos.
Ted – de Tedivaldo.
Janaia – Janaína .
Fran – Franésia.
Amigos e inimigos mortais.
Ted amava Fran desde os tempos de escola. Janaia Fazia tudo para impedir.
Lia, a caolha, observava tudo. E anotava no diário secreto, que ficava sempre no fundo da mochila azul.
Como era caolha desde os três anos de idade. Devido a um acidente doméstico, era apelidada assim.
Na escola, na hora do recreio, os meninos só chegavam para comer o bolo da mãe de Caolha.
“O de mandioca é uma delícia!”, dizia Fran, péssima em Língua Portuguesa.
Passavam-se os anos. Lia Caolha, cada vez mais, enxergava bem. Era a primeira da turma nas aulas de redação. E anotava tudo no diário que vivia vivo no fundo da mochila azul.

2ª fase
Agora, todos eles com doze anos. Na escola, no interior, ainda.
Surgem os primeiros pelos.
A primeira menstruação.
Os meninos, Ted, Janaia e Fran, também crescidos.
Ted continuava encantado por Fran, mas queria janaia.
Lia, sozinha no recreio com seu bolo, observava a tudo atentamente. E escrevia.
Um dia. Um piquenique.
Os meninos chamaram Lia, não para brincar, mas para levar a cesta de guloseimas. Coitada.
Pensara noutra coisa, Lia, quando a convidaram.
“Você fica aqui para vigiar a comida e, nós, tomaremos banho no rio”, fala Fran à menina.
Coitada.
Ela ficou. Eles foram.
Grilada, Lia Caolha resolveu ir atrás dos garotos. Deixou a comida.
Foi espiar.
Todos pelados na cachoeira.
Caolha escorrega e faz barulho.
Todos percebem a presença da menina.
Lia sai correndo.
Chegando lá, a comida estava cheia de formigas.
Assustada.
Emocionada.
E molhada pela primeira vez.
Os meninos vestem a roupa e saem ao encontro de Lia.
Lia chorava em volta da cesta.
“O que é?”, pergunta Ted.
Lia fica calada. E chora.
Chora.
Chora.
“O que é?”, pergunta Fran.
Ela chora.
Chora.
Chora.
“O que é?”, pergunta Janaia.
Ela ri.
Levanta-se e aponta para Ted.
“Vi a sua bunda”.
Ele chuta a cesta.
Fran empurra Lia.
Janaia cospe.
Lia chora.
Chora.
Chora e ri.
Todos vão embora. E deixam Lia ao chão.
A menina corre para casa, fecha a porta, tira a roupa e escreve tudo no diário, tim-tim por tim-tim.
No outro dia:
Na escola.
No recreio.
Ninguém falava com a garota.
Lia Caolha chora no recreio, sozinha, comendo bolo.
Era chorona por natureza. “Chorar me faz produzir mais dramas”, falava.
Chega o Ted.
“Quer tomar banho de cachoeira comigo?”.
Lia levanta a cabeça, dá um risinho e diz:
“Vou ver a sua bunda de novo?”.
Ted, imediatamente, responde:
“Não só!”.
E vão...

3ª fase

Passaram uns 20 anos.
Tedivaldo e Lilibethe têm filhos e moram na Capital
Ted é jogador de basquete.
Lia, que fizera uma cirurgia no olho, refizera também a sua face.
Mas a correção não lhe tirou a visão e nem tampouco esperteza.
Agora bela e atraente, amava apenas a Ted – e mãe de dois meninos.
Escrevia para revistas e ainda poemas ao marido.
A literatura de Lia não acatava aos poderosos da cidade, mas atingia a elite com sutilezas ácidas, corrosivas.
Outro dia, um telefonema: “Lilibethe, quer trabalhar no Afeganistão?”.
Era a Janaia: a amiga-inimiga, péssima em Português.


4ª fase
(...)